unidade básica de saúde gurugi

conde | 2019

“Como participante da roda, entendi que a lateralidade ou prática da roda faz circular a experiência incluindo a todos e a tudo em um mesmo plano - plano sem hierarquias, embora com diferenças; sem homogeneidade, embora traçando um comum, uma comunicação.”
(MORAES, Peticia Carvalho. A festa do Coco nas comunidades quilombolas paraibanas Ipiranga e Gurugi. São Paulo, 2016)

 


CULTURA, IDENTIDADE E TERRITÓRIO
Os quilombos são caracterizados pelo uso comum de suas terras, tratadas como espaço coletivo e indivisível, ocupadas e exploradas por meio de regras consensuais e cujas relações são permeadas por solidariedade e ajuda mútua. Para os quilombolas no geral, pensar em território é considerar um pedaço de terra para usufruto coletivo, como uma necessidade cultural e política de se diferenciarem de outras comunidades e decidirem seu próprio destino.
A concepção do território ocorre a partir de uma dupla conotação: material e simbólica. A identidade quilombola, que se mantem em permanente luta e resistência, se constroi e reconstroi sempre vinculada ao território, visto que ele abriga a reprodução material e imaterial da comunidade. Ali se fortalece o sentimento de pertencimento para o grupo e são estas relações que criam e informam o seu direito à terra. A sua relação com a terra está imbuída de valores simbólicos, representando um modo de vida, uma forma de organizar o espaço, o trabalho e a própria vida.

Dentre as diversas manifestações culturais presentes no Gurugi, os saberes do uso de plantas medicinais no tratamento de problemas de saúde aparece como elemento que compõe a cultura simbólica do território. Uma vez que a credibilidade na adoção de plantas com objetivos medicinais apresenta um decréscimo na população quilombola mais jovem do Gurugi, o cultivo e aplicação destas na Unidade Básica de Saúde é de fundamental importância para manutenção desse conhecimento.

Entendendo a identidade como um fenômeno marcado pela fluidez e pela mutabilidade, o projeto para a Unidade Básica de Saúde do Gurugi é proposto como um equipamento de uso comunitário que, mais do que remontar ao passado da cultura quilombola, se projeta sobre um futuro para essa comunidade que busca seu espaço nas políticas públicas e permanece em constante reivindicação pelo território.

APROPRIAÇÃO MATERIAL
A adoção de um grid espacial regular se faz como um ato de reivindicação do território, criando-se assim uma demarcação abstrata e um primeiro ato de ocupação. A sua materialização física como sistema estrutural, apoia-se como elemento que organiza e orienta, contrapondo-se com o território do Gurugi de ocupações dispersas, tornando-se um objeto marcante na paisagem, característica relevante para um equipamento público nesse contexto. Dentro desse sistema, adicionam-se os demais elementos necessários para absorver as particularidades do contexto e cumprir com as necessidades do programa.


DESIERARQUIZAÇÃO

A forma circular pressupõe uma relação de não hierarquia, ou seja, de igualdade entre todos os agentes que atuam ao seu redor. Assim, adota-se o pátio circular como espaço para o encontro e a troca e como organizador funcional de acesso aos setores ao seu redor em um único nível, garantindo acessibilidade universal.

APROPRIAÇÃO IMATERIAL
Entendendo a utilização de plantas medicinais como um dos principais elementos da cultura simbólica da comunidade, implanta-se no centro do pátio circular uma horta educativa e paisagística de plantas medicinais,de modo a promover o contato do público da UBS com esse conhecimento particular local. Dessa maneira, além de satisfazer as necessidades práticas, a horta opera como um agente que promova a manutenção de uma cultura imaterial para as próximas gerações.


ESPAÇOS INTERVALARES
Nos extremos do edifício, espaços intervalares atuam como zonas de diluição de fronteiras, criando uma transição humanizada entro o edifício e o território. A aplicação de plantas para fins medicinais e paisagísticos, contribuem para uma relação visual e identitária dos usuários com estes espaços. As paredes de tijolos vazadas garantem privacidade e controle de luz aos consultórios.


ESTRUTURA E MATERIALIDADE
O projeto visa a modularidade e a racionalidade construtiva, partindo de uma malha estrutural de concreto de 3m x 3m. As lajes inferiores de concreto são destacadas do solo e a laje superior é sombreada por uma cobertura leve e independente, com estrutura de treliças metálicas e telha metálica de fechamento.

Os fechamentos externos são propostos com paredes de tijolos com quatro paginações diferentes, sendo duas delas completamente opacas -  utilizadas quando há necessidade de maior privacidade e controle de luz -  e outras duas com níveis de transparência diferentes - juntamente com os planos de vidro, são aplicadas nos consultórios de acordo com o nível de privacidade e controle de luz natural desejados. Externamente, o padrões e texturas dessas paredes criam uma relação afetiva e identitária do edifício com a comunidade. As paredes internas são de gesso acartonado, possibilitando futuros arranjos necessários.

SUSTENTABILIDADE E CONFORTO
A ocupação do edifício visa trazer conforto para os espaços: a adoção de pátios com vegetação contribuem para a criação de um micro clima; as lajes inferiores são suspensas do solo para permitir ventilação e evitar o contato com a umidade do solo; a cobertura metálica se destaca para sombrear as lajes superiores e permitir a ventilação entre essas duas camadas de cobertura;

Em conjunto com os elementos construtivos, os planos de vedação também contribuem para uma melhor eficiência: janelas altas basculantes, venezianas e paredes de tijolos vazadas permitem a ventilação cruzada e o escape do ar quente por efeito chaminé; os brises de concreto, em conjunto com as paredes de tijolos vazadas, são responsáveis pelo controle da incidência solar e da luz natural.

 

Ficha Técnica

Equipe de Projeto: Alexandre Kenji, Vitor Takahashi, Daniela Moro

Localização: Conde, PB - Brasil

Área: 254m²

Ano: 2019